História do Taekwondo – das origens à actualidade

1. Origens do Taekwondo

A origem do Taekwondo remonta a mais de 2000 anos atrás, numa época em que a actual Coreia se dividia em 3 reinos – Silla, Koguryo e Baekche, constantemente em conflito entre si e com a china e o Japão.

 

Embora não se conheça efectivamente a localização geográfica das primeiras práticas do que se veio a designar de Taekwondo, sabe-se que independentemente do local ou região, os povos primitivos desenvolveram métodos de combate e defesa que lhes possibilitaram resistir a agressões, tanto por parte de animais selvagens como também por parte dos seus inimigos humanos.

 

Para além da sua função defensiva e de combate, muitas das práticas ocorriam, em tempos remotos, sob a forma de jogos e actos religiosos. Os praticantes começaram por copiar posições defensivas e ofensivas adoptadas por animais, posições essas que posterior e progressivamente forma sendo transformadas em métodos de combate eficazes.

 

Assim, mesmo em tempos de paz, este tipo de actividades eram incorporadas nos rituais das diversas comunidades tribais.

 

Cronologicamente, podemos enumerar os principais períodos temporais que mais contribuíram para a fundação e desenvolvimento desta arte marcial:

 

1º - Dinastia Koguryo (57 A.C.)

2º - Dinastia Silla (37 A.C.)

3º - Dinastia Koryo (935 – 1392 D.C.)

4º - Dinastia YI ou Chosun (1392 – 1910 D.C.)

5º - Domínio Japonês (1910 – 1945 D.C.)

6º - Libertação da Coreia (1945 D.C.)

7º - 1ª apresentação como desporto oficial da Coreia (1963D.C.)

 

A prática de Tae-Kyon (a mais primitiva forma de Taekwondo) na Dinastia Koguryo (57 A.C.) foi comprovada através da descoberta de pinturas antigas nas paredes de Muyong-Chong, numa tumba Real da Dinastia Koguryo, num período anterior ao ano de 50. A.C., na qual se pode observar 2 homens de frente em posturas de Taekyon. Também num outro túmulo (Kakchu-Chong) se pode constatar num mural a existência de 2 homens a lutar Taekyon.

 

O reino de Silla, por ser o mais pequeno e menos desenvolvido dos três, era alvo de constantes invasões, pelo que o Rei de Koguryo, amedrontado face aos ataques de piratas japonenses, resolve enviar forças militares ao Reino de Silla, por forma a treinar alguns guerreiros nobres, ajudando-os assim a combater conjuntamente contra os japoneses. Assim foi introduzida esta arte marcial no Reino de Silla, reino esse que se tornou o seu principal impulsionador.

Desta união de esforços, resultou um grupo de guerreiros que ficou conhecido como os Hwarang, os quais forma treinados em diversas modalidades que não apenas o Tae-Kyon (arco e flecha, marcha, espada, bastão, lança e outras tácticas militares).

 

No entanto, o seu rei (de Silla) achava que a este conjunto de práticas de combate/defesa faltava uma ideologia, sem a qual, estes nobres guerreiros facilmente poderiam ser encarados como meros assassinos bem treinados. Foi então que se começou a associar a este conjunto de práticas, algumas disciplinas teóricas tais como História, Filosofia Confuciana, ética e moral budista. Na sua diversidade e riqueza multidisciplinar veio então a formular-se o seu código de honra, que assentava nos seguintes pressupostos:

 

  • Fidelidade ao Rei
  • Lealdade aos amigos
  • Respeito aos pais
  • Nunca recuar perante o inimigo
  • Só matar quando não existir outra alternativa

 

Com a formulação deste código de honra, o movimento passou a denominar-se de Hwarang-do (em que o “Do” significa o caminho em todas as artes marciais orientais).

 

Após a formação deste grupo “Hwarang” e deste movimento “Hwarang-do” o Rei de Silla tornou-se verdadeiramente forte face aos seus inimigos e no ano de 670 D.C.), conseguiu unificar os 3 reinos da península sob uma única bandeira (a sua).

O Tae-Kyon foi então desde este ponto (668 D.C. até 935 d.C.), difundido por todo o reino, tornando-se tão popular como uma actividade recreativa ou um sistema de desenvolvimento físico, ainda assim não ignorada a sua componente defensiva.

 

Posteriormente, já na Dinastia Koryo (935-1392), o Tae-Kyon começou a ser também conhecido a nível mundial, através das mercadorias que os comerciantes traficavam. O Tae-Kyon adoptou a designação de Soobak e deixa de ser visto como um sistema de desenvolvimento físico e passa a ser encarado como uma arte marcial.

 

Depois da queda da Dinastia Koryo, foi estabelecida a dinastia de Yi, ou Chosun, criada por Yi Kye.

 

Neste período, a popularidade do Soobak era tanta que se tornou imprescindível a sua prática nas sociedades militares, sendo mesmo exigida a sua prática para efeitos promocionais (progressão de carreiras militares).

 

O 1º livro conhecido sobre esta arte marcial remonta à Dinastia Yi (1397D.C. – 1907 D.C.) e teve como objectivo a valorização e divulgação desta arte marcial entre a população, a qual se traduziu na manutenção da sua sobrevivência (essencialmente a partir da 2ª metade da dinastia Yi) já que esta arte marcial começou a perder prestígio entre os membros da nobreza (que até então haviam sido os seus grandes divulgadores) em função das mudanças na visão política das actividades militares. O êxito desta arte marcial entrou então em declínio, devido à negligência e oposição da corte real, que se encontrava turvada por problemas políticos.

Posteriormente, no ano de 1907, a Coreia foi invadida pelo Japão, terminando assim a Dinastia Yi, à qual se sobrepôs o imperialismo colonial Japonês, o qual suprimiu todas as modalidades de cultura local, nomeadamente o Tae-Kyon/Soobak.

 

Assim, durante todo o período invasivo e até à libertação definitiva da Coreia (em 1945) o Taekyon foi mantido vivo clandestinamente pela população, passando de geração em geração e ensinado ás escondidas por alguns mestres que se recusavam a seguir as ordens dos seus invasores Japoneses. O governo japonês interditou a prática desta modalidade pois admitia que assim poderia evitar subelevações anti-governamentais por parte do povo Coreano.

 

A libertação da Coreia do domínio japonês, em 1945 (mais precisamente a 15 de Agosto de 1945) trouxe à Coreia um reviver das artes marciais coreanas tradicionais. Destes esforços conjuntos nasceu a Korea Taekwondo Association, fundada em 1961, e em 1963 o Taekwondo foi aceite e representado no 43º festival atlético nacional coreano, demarcando-se assim a sua estreia oficial como desporto nacional.

 

Assim, a partir dos anos 60, o Taekwondo foi divulgado pelos seus mestres coreanos, por todo o mundo, à medida que estes se formavam, fixando e promovendo esta modalidade/arte marcial nos seus países de acolhimento.

 

Do Taekowndo, ascendeu a sua vertente de combate livre (Kyorugi), a qual se tornou a mais praticada pelo Mundo.

 

Em 1973, ocorreu o 1º Campeonato Mundial de Taekwondo, realizado na capital da Coreia (Seoul) e contou com a participação de 18 países. Nessa altura, foi então fundada a WTF- World Taekowndo Federation.

 

A partir de 1973, os campeonatos mundiais têm vindo a ser realizados bi-anualmente e em 1987 foram abertos à participação feminina. 

 

 

2. Taekwondo em Portugal

O Taekwondo foi introduzido em Portugal no ano de 1974, pela mão o seu Grão-Mestre David Chung Sun Yong, actualmente 9º Dan, no Sporting Clube de Portugal, o primeiro Dojan de Taekwondo a funcionar no nosso País.

 

Decorria o ano de 1974, quando o cidadão venezuelano José Ranon Yepes Tello, a estudar em Lisboa, no IST e praticante entusiasta de Taekowndo, e o Sporting Clube de Portugal, contactaram a ITF, na pessoa do General Choi, para que fosse destacado para Portugal, um mestre com a missão de divulgar e implementar a prática de Taekwondo. Por outro lado, também se encontra documentada a data de 6 de Junho de 1974, data essa em que o SCP, por requerimento subscrito pelo seu então Presidente, João Rocha), solicitou à CDAM autorização para a abertura de um centro de karaté coreano (Taekwondo), indicando o Mestre Chung, na altura 6º Dan. A Comissão Directiva das Artes Marciais, adiante designada apenas por CDAM deu então diferimento ao pedido, nascendo assim o Taekwondo em Portugal.

 

Nessa altura, o ensino e a prática das artes marciais estavam sujeitos à superintendência da comissão Directiva das Artes Marciais, CDAM, criada em 1972 e presidida na altura pelo General Manuel Simão de Portugal, tendo como Conselheiro técnico o Comandante Fiadeiro e como Secretário-Geral o Engº Vítor Mota (actualmente secretário-geral do comité Olímpico de Portugal). Esta Comissão tinha como finalidade assegurar que o ensino fosse exercido apenas por técnicos devidamente qualificados, em instalações adequadas, evitando assim a invasão de oportunistas que exploravam os incautos praticantes e manchavam a imagem destas nobres artes.

 

Com o proliferar do ensino desta modalidade, tornava-se urgente a criação de um órgão regulador do Taekwondo em Portugal, que fosse reconhecido pela já constituída WTF (1973), o que aconteceria não por ruptura com a CDAM mas para a sua consolidação.

 

Em 14 de Agosto de 1975, é então constituída a Associação Portuguesa de Taekwondo, contando na presidência com Fernando Vieira e cujo Director Técnico designado foi o Mestre Chung. Nesse mesmo ano, acontece a 1ª participação portuguesa internacional nesta modalidade, a qual ocorreu em Barcelona. Com uma equipa composta por 7 elementos, do SCP, e com graduações compreendidas apenas entre o 6º e o 4º Kups, é óbvia a “Taça de Mérito”.

 

Em 1976, Portugal participou no Campeonato Internacional de Madrid, no qual obteve vários títulos individuais e colectivos, ano a partir do qual se veio a efectivar com alguma regularidade.

 

A partir de 1976, um pouco por toda a Região de Lisboa e até ao Funchal, começaram a surgir novas escolas, dirigidas pelos seguidores (alunos) do mestre Chung e poucos anos mais tarde, são abertas escolas em Vila franca de Xira, Figueira da Foz e Porto (já na década de 80).

 

Em 1977 formaram-se os primeiros cinturões negros portugueses, momento a partir do qual terão sido formados mais de 700 cinturões negros em Portugal, tais como António Diogo e Nelson Costa, aos quais se seguiram Paulo Jorge Ribeiro e Paulo Reis (1980), António fraga e Paulo Martins (1984), Rui Ribeiro (1986), entre outros.

 

Em 1981 foi conquistada a 1ª medalha (de bronze), no campeonato europeu de Juniores, em Estugarda (Alemanha), obtida pelo atleta Pedro pereira.

Em resultado da franca expansão do Taekwondo, verificou-se na década de 80, uma ruptura inevitável em relação ao Mestre Chung, pela necessidade de auto-afirmação dos seus discípulos. O Mestre Chung abandonou assim o SCP em 1984, formando então a Academia Portuguesa de Taekwondo mestre Chung, à qual acorreram centenas de praticantes ávidos de obter todos os conhecimentos do mestre.

 

 

Em 1985, regista-se a participação de uma equipa portuguesa no campeonato do Mundo Universitário, disputada em S. Francisco (USA).

 

Em 1987, intensificam-se as divergências em relação á estrutura hierárquica do Taekwondo, em pirâmide, em cujo vértice/topo era coroado pela figura do mestre e dão-se os primeiros passos para a criação da FPT, extinguindo-se a CDAM.

 

O mestre Chung reivindicava uma Federação que albergasse os 2 estilos de Taekwondo reinantes: o ITF e o WTF e, por uma questão de coerência e defesa daquilo em que acreditava, começa a desenhar-se algum distanciamento deste em relação à FTP, levando-o a dedicar-se exclusivamente à sua Academia.

 

Em 1990, com a publicação da Lei de Bases do Sistema Desportivo, tornou-se obrigatório que as modalidades desportivas fossem apoiadas financeiramente por uma Instituição de Utilidade Pública (devidamente reconhecida pelo Estado), tornando-se assim urgente a criação da Federação Portuguesa de Taekwondo FTP), o que se veio a efectivar em 1992 (27 de Novembro).

 

À FTP vieram aliar-se a Academia de Taekwondo de Lamego, a Associação Portuguesa de Taekwondo, a Associação de Taekwondo de Braga e a Associação de Taekwondo do Minho.

 

Em Novembro de 1993, Portugal participou, pela 1ª vez no Campeonato Internacional “Ciutat de Barcelona”, com 9 atletas, o que se veio a repetir em 1994.

 

Ainda em 1994 (Julho), acontece a 1ª participação federativa no europeu de juniores, em Bucareste (Roménia).

Em 1995, participou-se no campeonato Mundial de Seniores de Manila (Filipinas) e, pela 3ª vez consecutiva, no “Ciutat de Barcelona”, participação essa que ficou marcada pela obtenção da 1ª medalha de Bronze (pelo atleta João Vagos).

 

Em Maio de 2004, Pedro Póvoa conquista a Medalha de Bronze no campeonato Europeu de Seniores, em Lilehammer (Noruaga).

 

Em 2008, Pedro Póvoa conquistou o 7º lugar nos jogos olímpicos de Pequim. Até então, Portugal jamais tinha participado nos jogos olímpicos, na modalidade de Taekwondo. Hoje, Pedro Póvoa é a principal figura da modalidade em Portugal, embora tenhamos o atleta Mário Silva, a representar Portugal nos Jogos olímpicos da Juventude em Singapura e temos também, pela 1ª vez, um atleta júnior vice-campeão do Mundo –Michel Fernandes. No Ranking Mundial, e fruto do trabalho do Seleccionador Nacional Joaquim Peixoto e do Presidente da FTP Professor José Luís Sousa, temos ainda outros atletas.

 

 

Lisboa, Agosto de 2012

Tarik El Jamri

 

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